O PRIMEIRO DIA DE AULA!

Bora pro texto...

Chego cedo ao local, um pouco mais de 30 minutos antes do horário de início das aulas, entro no prédio e sigo em direção à sala dos professores para encontrar o coordenador do curso.

Naquele dia estava completando uma semana desde que eu passei por um infarto, por uma angioplastia e recebi um stent. Tive alta do hospital apenas no dia anterior e ainda estava debilitado. Hoje pensando bem, foi meio loucura, mas a vontade de encarar o desafio e o medo de perder a oportunidade falaram mais alto.

O coordenador então me dá as últimas instruções (regras, burocracias, número da sala) e me indica onde pegar as chaves, as pastas com os dados da turmas e da disciplina, os pincéis marcadores, e o controle do projetor. 

Sempre fui muito tímido, quando era criança e chegavam visitas em casa, ia correndo me esconder no quarto. Na adolescência, sempre que chegava em algum grupo com mais pessoas que não conhecia, ficava calado pois não sabia o que falar e fazia o possível para não ser notado. Só me sentia à vontade e me soltava quando estava em um grupo mais conhecido.

Então aquele era um dia, ou melhor, uma noite, que seria um divisor de águas na minha vida e na minha carreira, e o que aconteceria, não importa o que, bom ou mau, cômico ou trágico, seria algo de que me lembraria pelo resto da vida. 

Pensando nisso, acabei ficando nervoso e ansioso, e o estranho era de que até aquele momento eu imaginava que iria ser mais fácil, e que o difícil tinha sido passar na aula-teste duas semanas antes, quando fiz uma apresentação para uma banca de professores. Naquela oportunidade ainda não havia passado pelo infarto e apesar de estar nervoso, me preparei, utilizei algumas dicas de colegas e consegui me sair bem, tão bem que me aprovaram. A falta de autoestima e a síndrome do impostor me fizeram pensar naquele momento: enganei bem!

A partir dali não podia mais escapar, tinha que encarar o que viesse pela frente, e o fato de EU ter escolhido aquilo e de saber que precisava vencer o medo para crescer, pessoal e profissionalmente, me dava forças. 

Mas na hora foi “soda”. 

E lá fui eu, da sala dos professores para a sala de aula de número x, vestido com meu jaleco branco, o crachá de professor no peito, a pasta preta imponente recém comprada, carregada com alguns livros úteis e outros nem tanto. Segui todo orgulhoso pelos corredores, encontrei alguns conhecidos e então meu nervosismo passou repentinamente e passei a sentir meu ego inflado pelo fato de que ali o "Elson" tinha dado lugar ao “Professor Elson". 

A sala ficava no outro pavilhão, então desce escada, vira no corredor, no outro corredor vira de novo, sobe escada, outra escada e mais um corredor errado e dois corredores certos depois, chego na porta da sala, ufa!

A placa na porta indicava o curso certo mas no quadro de horários afixado ao lado a minha aula estava programada para outro dia. Como eu sabia que haviam alterado a grade na semana anterior devido ao meu infarto, fiquei tranquilo quanto a estar lá no dia certo, mas também pensei que já poderiam ter atualizado a informação.

Abri a porta e ao entrar na sala o medo e a ansiedade retornaram imediatamente e senti uma das maiores sensações de calor da minha vida. Corri então para abrir as janelas e ligar os ventiladores antes de algum aluno chegar. Já estávamos próximos ao horário de inicio da aula e aos poucos os alunos iam chegando. Enquanto isso tentava montar o equipamento e fazê-lo funcionar. Na sala havia um projetor fixo no teto, uau, que beleza! Conectei os cabos no netbook que usava na época. E nada!

E o tempo vai passando, mexe aqui, mexe ali, configura acolá, e nada acontece. Cara, confesso que nunca fui muito expert em informática, mas sempre me virei com problemas básicos, mesmo que muitas vezes na tentativa e erro mesmo. E naquela noite, quantos erros. 

Como não consegui fazer o troço funcionar, pedi pros alunos esperarem na sala e fui verificar se havia outro equipamento que pudesse usar. A atendente da biblioteca me disse que outros professores também haviam tido problemas de conexão naquela sala, então não adiantava mesmo eu continuar tentando que não iria conseguir nunca. E o projetor reserva já estava em uso naquela noite. Fazer o que né, ferrou!

No caminho de volta para a sala não sabia o que fazer, tive até vontade de sair correndo e nunca mais voltar ali. Pensava em todo esforço que tive ao preparar o material para a aula com base em slides do Power Point para me guiar na condução dos assuntos, e agora não tinha como usá-la.

O que eu ia fazer? Como conseguiria não passar vergonha na frente dos alunos? Daria por encerrada minha carreira nem iniciada de professor? Aquele trecho de corredores me pareceu uma eternidade.

Mas cheguei de volta a sala, olhei para a turma, eram 19 alunos presentes, do total de 23 que ainda restavam desde o início do curso. Já haviam se passado mais de 40 minutos desde o início da aula e nada ainda havia acontecido, pelo menos relacionado à disciplina, então peguei o caderno de presença e fiz a tradicional chamada.

Devido à minha timidez um dos terrores que me assombravam desde criança era ter que me apresentar para um grupo grande de pessoas, o que era comum na escola ou em algum curso. Os famigerados "seminários" em sala eram meu bicho papão, assim como as famigeradas apresentações no início de cada turma/ano. Tão clichê né?

E o que foi que eu fiz no meu primeiro dia como professor? Pedi pra cada um deles se apresentar e dizer o que faziam além daquele curso, o que esperavam dele, e por aí foi. E o pior é que eu não os conhecia, mas eles entre si sim, pois era o segundo semestre do curso. Aff!

Então tive que encarar o principal objetivo de um professor, e fui tentando apresentar o conteúdo preparado colocando no quadro alguns pontos que estavam nos slides na tela do netbook, o que junto com as anotações que fiz nas folhas de um caderno, me orientaram na condução da aula.

Confesso que o medo de ouvir uma pergunta e não saber responder foi grande naquela noite, então dei pouca margem para alguém se manifestar. E assim o tempo foi passando e finalmente o relógio chegou às 22:40h, o sinal bateu e os alunos foram saindo.

Naquele momento me sentei na cadeira e tentei descansar um pouco, estava exausto após passar todo o tempo da aula em pé, falando e gesticulando muito para disfarçar o nervosismo e a insegurança. Fiz uma rápida análise do meu desempenho e percebi que estava fazendo exatamente o que sempre achei monótono e desestimulante em uma aula: o professor repassa e explica o conteúdo a aula inteira, sem quase nenhuma interação com os alunos.

Enfim, levantei, fui fechar as janelas e desligar os ventiladores, peguei meu material e tranquei a sala. Passei na biblioteca, devolvi a chave da sala e os pincéis e controle do projetor que não funcionou. 

Na sala dos professores deixei a pasta com as fichas dos alunos no arquivo e peguei um café na garrafa que tinha lá, mas putz, o café tava gelado. Eca!

E pego o rumo de casa. No caminho senti um alívio grande mas uma inquietude também, sentia que precisava reavaliar minha atitude e a dinâmica das aulas, não queria ser alguém que estava lá apenas pelo dinheiro. 

Eu realmente queria fazer diferença na vida destes jovens. 

Mas como poderia fazer isso efetivamente? Tinha uma semana pra descobrir.

E o segundo dia, ah, o segundo dia! Mas aí já é uma outra história.

🏃💨E fuiii…

*Imagem reprodução/internet

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