The Wall e o muro escola x empresa
Bora pra mais um devaneio...
Nas apresentações ao vivo da
ópera-rock The Wall, da banda inglesa Pink Floyd, lá pelo início dos anos 1980,
ia sendo construído um muro à frente do palco durante a execução do show,
chegando a um ponto do espetáculo em que havia uma separação total entre a
banda e o seu público.
Ou seja, a banda não conseguia
mais ver a reação imediata do público, e do outro lado, os fãs agora conseguiam
apenas ouvir a música e ver o muro (que recebia grandes projeções). Eles sabiam
que a banda estava ali, mas não conseguiam mais vê-la tocando, ficando
perplexos e de certa forma sem noção do que estava acontecendo do outro lado.
Baseado no álbum conceitual
homônimo lançado em 1979, The Wall é centrado no personagem fictício Pink, que
se isola da sociedade devido aos acontecimentos em sua vida, como a perda do
pai, o abuso e ridicularização pelos professores, a superproteção da mãe e o
fim do casamento. Inspirado em sua própria vida, Roger Waters explorou o
abandono e o isolamento na obra, e metaforicamente projetou cada um desses
traumas como um tijolo no muro.
Esse formato foi reeditado
novamente por Waters (já em carreira solo) em 1990 ao executar o show
acompanhado de diversos artistas convidados em Berlim, na Alemanha. Encomendado
pela prefeitura da cidade para comemorar a queda do muro que dividia a cidade e
o país, o concerto teve cerca de 350 mil espectadores e é considerado até hoje
um dos maiores espetáculos da história da música.
Adaptando um pouco o
significado original que Roger Waters quis passar com a obra, vou utilizar essa
dinâmica do álbum/show para fazer uma analogia com a questão educacional atual,
onde durante a jornada acadêmica do aluno muitas vezes há a impressão de que
está sendo construído um muro entre a teoria que é repassada a ele nesses meios
acadêmicos e a realidade que ele irá encontrar nas empresas posteriormente.
Nos últimos tempos esse é um
assunto que tem sido frequente nas conversas com meu irmão Wilson Kunze ou
seja, o imenso abismo que existe, principalmente nas carreiras administrativas,
entre o sistema educacional vigente e a efetiva prática profissional dos
egressos nas empresas, que chegam em grande parte despreparados ao mercado de
trabalho, sendo umas das causas da tão falada falta de mão de obra qualificada.
Para ilustrar esse descompasso entre a teoria que impregna o ambiente acadêmico versus a realidade encontrada nas organizações, posso enumerar diversos episódios que vivi ou acompanhei durante minha trajetória profissional e dos quais irei compartilhar alguns:
Em certa ocasião tive o
“prazer” de ser designado para acompanhar um grupo de jovens formandos de
Administração de uma das faculdades da cidade que desejavam realizar o TCC
sobre a empresa. Fiquei impressionado com a percepção de que eles estavam
totalmente “perdidos”, sem noção do que deveriam fazer ao certo.
Também demonstravam total
falta de conhecimento das atividades que eram desenvolvidas na empresa, como
por exemplo, o tema da dissertação era sobre gestão de frotas, mas para início
de conversa não tínhamos uma frota de veículos, mas sim apenas um caminhão que
fazia a movimentação entre as unidades. Mesmo assim insistiram no tema e o
resultado do trabalho, ao menos na minha opinião, foi sofrível. Mas, como de
praxe, acredito que devem ter alcançado a aprovação.
Outra situação comum, e que
provavelmente você deve ter conhecimento de casos semelhantes, é sobre empresas
que foram fundadas por pessoas sem muita ou nenhuma instrução formal, e que
alavancaram e expandiram seus negócios, utilizando muito do conhecimento
aprendido na prática do dia a dia.
Aí o(s) filho(s), que tiveram
a oportunidade de estudar em “boas” escolas e faculdades, e que “foram
preparados” para assumir os negócios dos pais, quando efetivamente assumiram
seus papéis na sucessão levaram essa empresa à bancarrota.
Lá pelos idos de 2007, quando
iniciei minha primeira faculdade de Tecnologia via EAD, recordo que um dos
chamarizes na divulgação dos cursos de tecnologia (mais curtos e em áreas mais
específicas) era de que aquele curso era voltado principalmente para os profissionais
que já atuavam na área do respectivo curso (que era o meu caso) e que queriam
um embasamento teórico para progredir profissionalmente.
Mas com a popularização dessa
modalidade que passou a ser oferecida por um número cada vez maior de
instituições, esse pilar acabou por se perder, acredito que seja principalmente
por motivos comerciais e financeiros.
E agora em 2021 cursava outro
curso na mesma modalidade e percebi que há uma prática de “aprovação a todo
custo”, com a oferta de diversas avaliações sucessivas, como as provas
regulares, substitutiva, segunda chamada, exame, recuperação, ufa!
Ou seja, o aluno simplesmente
não tem como ser reprovado, pois de prova em prova as questões acabam
inevitavelmente se repetindo e o aluno vai “decorando” até atingir a nota
mínima para seguir no curso. E eu pergunto, que tipo de profissional está
saindo de uma formação assim?
Não que os cursos EAD em si
tenham má qualidade, acredito que seja muito válido para quem realmente se
interessa e se aplica aos estudos, na maioria dos casos o material didático é
bom e os docentes excelentes, mas como a instituição de ensino é uma “empresa”,
que deve gerar lucro, a tática de aprovação a todo custo é muito aplicada para
que o aluno continue estudando e pagando as mensalidades, ou seja há muita
pouca, ou nenhuma preocupação com a correlação do conteúdo com a realidade do
mercado de trabalho.
Além do que, estão surgindo
novos cursos com temáticas no mínimo duvidosas, creio que aproveitando algumas
"modinhas" para reforçar o caixa.
Em outro momento, cursava um
MBA em Logística, e a proposta do curso era muito boa, com vários mestres e
doutores entre os docentes. No decorrer do curso notei uma certa relação entre
o nível de formação do docente com a realidade que nós como alunos tínhamos nas
empresas em que atuávamos: Quanto maior a formação, mais distante era o
conteúdo da realidade que enfrentávamos nas empresas.
Acredito que apesar de deterem
um vasto conhecimento das teorias, lhes faltava a correlação com a prática do
dia a dia nas empresas e também a didática apropriada para nos transmitir esses
conhecimentos.
Para exemplificar, o
professor que na minha opinião mais se destacou e que tinha uma didática que
fugia à tradicional foi quem mais nos trouxe conhecimentos efetivos e
relacionados diretamente com nosso dia a dia.
Ele era “apenas” um
especialista, mas que tinha um diferencial essencial: Ele atuava diretamente na
área do curso e por isso tinha vasto conhecimento prático do que realmente
acontece em uma empresa, nos trazendo fatos e situações reais vividas por ele
de uma maneira que nos instigava e nos direcionava a sempre buscar mais. Até
hoje tenho ele como uma de minhas referências.
Esses foram apenas alguns
episódios reais, mas que indicam que o ensino deve ter um envolvimento mais
ativo dos alunos na dinâmica de sala de aula, com maior ênfase na prática e na
aplicação dos conceitos aprendidos.
Não é possível que continuemos
a querer adotar o modelo tradicional de décadas num mundo atual onde as
mudanças são cada vez mais frequentes e a presença da tecnologia em nosso dia a
dia é cada vez maior.
Precisamos sim, ao contrário
do que acontece no show The Wall, onde o muro é derrubado apenas ao final da
apresentação, quebrar esse muro ainda durante a sua construção, e se possível
ir ainda mais longe, eliminando cada tijolo conforme este for se acumulando
entre os dois lados.
Seria isso uma
utopia?
*imagens reprodução/internet
*Texto revisado e adaptado, originalmente postado em maio de 2021 no LinkedIn no perfil https://www.linkedin.com/in/elson-kunze/

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