A DEPRESSÃO!

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Apesar da depressão ter sido considerada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como o "mal do século", ainda é um assunto muito obscuro e cheio de preconceitos. Silenciosa e sorrateira, é uma doença incompreendida inclusive por quem sofre do problema. 

Existem componentes genéticos, biológicos e psicossociais que despertam a depressão, mas outros fatores como rotinas exaustivas, pressão por resultados, objetivos inatingíveis e cobrança excessiva causam estresse e afetam a qualidade de vida, o que pode levar à doença.

Minha relação com a depressão inicia ainda lá no final do século passado, eu era um jovem de vinte e poucos anos e ela ainda estava em estágio moderado e não influenciava tanto no meu dia a dia. Apesar disso eu já fazia uso de antidepressivos.

Quando recebi o diagnóstico da miocardiopatia tive que começar a tomar uma porrada de remédios pra tentar compensar a deficiência cardíaca, por isso resolvi parar com o antidepressivo pois na minha cabeça tinha um problema muito maior pela frente.

E assim fui indo, depois de alguns anos em tratamento cardíaco e na fila de transplante, a medicação estava conseguindo compensar a minha condição cardíaca e meu estado melhorou bem.

Saí da fila e consegui autorização médica pra voltar ao trabalho. Por um longo tempo consegui me manter ativo e motivado, agarrado ao trabalho e à volta aos estudos.

Mas a depressão continuava ali, à espreita, só esperando uma brecha pra dar um "oi".

E nesses tempos eu cometi um erro grave, até tentei, mas não abandonei o hábito do tabagismo. E olha o que isso desencadeou:

Era uma terça feira do inverno de 2013 quando fui consultar meu cardiologista e ouvi dele: – Você até que está bem, mas o cigarro vai te pegar, pode ser hoje, pode ser na semana que vem ou no ano que vem, mas uma hora ele vai te pegar.

E não deu outra, nem demorou muito. Já no dia seguinte, umas oito e pouco da manhã, e eu já havia fumado uns 3 cigarros ao menos, quando comecei a sentir uma forte dor no peito: estava infartando.

Felizmente estava na empresa e fui socorrido rapidamente pelos colegas da segurança no trabalho que me levaram pro hospital. 

Em resumo, fiz uma angioplastia e tive que colocar um stent. Já na UTI meu cardiologista veio me ver, e com aquele sorrisinho maroto no canto da boca disparou: – Não te falei?

Pois é, e a partir desse episódio me desestabilizei psicologicamente de vez. Ao invés de me recuperar bem do infarto, teimoso que sou, depois de 7 dias já estava lecionando em sala de aula e em 15 dias retomei o meu trabalho normalmente (ou quase).

Mas o baque do infarto continuou me afetando, já não estava mais feliz com meu trabalho, não tinha ânimo pra levantar pela manhã e conforme ia chegando na empresa uma ansiedade terrível ia tomando conta de mim. 

Hoje tenho ciência que o problema não era o trabalho, mas era eu, só que naqueles tempos a própria depressão não me deixava ver isso.

Pedi pra sair, juntei minhas economia e mergulhei num projeto pra mudar de vida, mas não estava tão preparado como imaginava nos meus devaneios depressivos. 

A esta altura você já deve imaginar que não deu certo e assim a ansiedade foi tomando conta de mim novamente, e dessa vez ela veio e ficou.

Tive que dar um passo pra trás e consegui um outro trabalho, ao qual novamente me dediquei pra tentar esquecer a depressão e driblar a ansiedade.

Nessa época até fui algumas vezes ao psiquiatra, mas aí tomava o remédio por um tempo e abandonava. E assim ia tentando sobreviver.

Depois que fui desligado dessa empresa entrei em outra, e tudo ia muito bem, ambiente ético, agradável e colaborativo, preocupação com o bem-estar do colaborador, além de outros aspectos positivos. 

E eu continuava com as idas esporádicas ao psiquiatra e naquela oscilação de tomar remédio e parar.

Mas aí veio outro baque, os remédios pra cardiopatia não conseguiam mais compensar a deficiência do miocárdio, e depois de várias passagens pela UTI cheguei aos 11% da minha capacidade cardíaca. Não tinha mais fôlego pra nada. Nada mesmo.

E aí veio a recomendação médica: – Não, você não vai poder voltar ao trabalho – me disseram os médicos. Mesmo com um novo tratamento que melhorou um pouco minha qualidade de vida, ainda não pude voltar a trabalhar.

E o ócio descobertou a depressão, que veio com força total dessa vez. Comecei a visitar uma psicóloga mas não senti avanços. E segui tendo sérias crises depressivas que me levaram a atitudes das quais não me orgulho.

E aí houve a necessidade de mudança de cidade pra ficar mais próximo ao tratamento cardíaco. No começo os novos ares supriram um pouco os pensamentos ruins, mas depois de um tempo não teve mais jeito.

Incentivado pela minha esposa tomei coragem e fui consultar novamente uma psicóloga. Até que parecia que estava indo bem, mas aí a clínica trocou o profissional. E lá vamos nós praticamente começar tudo de novo.

Logo em seguida veio uma nova mudança de cidade e lá fui eu atrás de tratamento novamente. Voltei então a tomar antidepressivos e comecei uma terapia com uma psicóloga na nova cidade.

E cara, essa combinação do remédio certo com a terapia certa fez toda a diferença pra mim. Pra ser sucinto, aos poucos consegui ver que vivia muito preso aos erros e falhas do passado ao mesmo tempo que sentia ansiedade pela incerteza do meu futuro.

E assim aprendi a viver mais o presente e ver a beleza nos pequenos momentos de felicidade, que na correria normal do dia a dia consideramos banais. 

Mas o principal resultado mesmo foi conseguir aceitar a minha doença, as limitações e as implicações que ela carrega consigo, algo que até há pouco tempo era um grave problema pra mim e eu não tinha nem ciência disso.

Ao mesmo tempo ocupei parte do meu tempo com a escrita de casos sobre tomada de decisão que vivenciei ou presenciei ao longo da minha carreira, numa colaboração com meu irmão Wilson na construção do livro "Casos Empresariais - A Tomada de Decisão na Prática", que inclusive já está à venda pelo site Conexão Kunze.

Essa tarefa de escrever esses casos foi de extrema importância pra mim nesse período, pois além de ocupar parte do meu tempo, fez com que eu me sentisse útil e me inspirou a desenvolver meu lado escritor.

E olha só, depois de pouco mais de um ano de terapia fui surpreendido com a indicação de alta pela minha psicóloga, pois ela avaliou que não havia mais necessidade de continuar. Que alegria.

Tenho ciência que não estou curado, apenas estou conseguindo controlá-la. Não sinto mais aquela ansiedade que me acompanhava nas 24 horas do dia, mas ainda tenho dias difíceis. A diferença é que hoje consigo administrar melhor esses momentos e aproveitar os dias em que estou bem.

Apesar de ter tido alta, ainda continuo tomando um antidepressivo, até porque estou perto de passar por uma experiência no mínimo impactante, que é um transplante de coração, então é melhor prevenir.

A mensagem que quero deixar, é de que se você se sente infeliz, se a ansiedade te incomoda, e você tem pensamentos depressivos, perca o medo e vá procurar ajuda.

Não tenha vergonha e não se preocupe com o que "os outros" podem dizer ou pensar, o importante é o que VOCÊ sente, concorda?

Mas procure ajuda especializada, não essas terapias "alternativas" sem comprovação de que sejam efetivas, não caia no papo de "gurus" do sucesso ou da felicidade e nem adianta querer se curar com aquele livro de auto-ajuda que está bombando por aí. Isso pode até camuflar o problema por um tempo, mas a médio prazo não vai resolver.

Procure a ajuda certa, um Psiquiatra que pode te receitar um medicamento adequado pra aliviar os sintomas depressivos e faça terapia com um Psicólogo pra você entender o seu problema e saber como lidar com ele.

Se a sua situação financeira estiver complicada procure no SUS – em alguns locais ele oferece atendimento psicológico/psiquiátrico – em organizações de assistência social ou outras alternativas de menor custo na sua região.

Mas não deixe de procurar ajuda, sozinho você não vai conseguir superar, não vai! 

E procure o quanto antes, e quando você se libertar vai perceber que perdeu muito tempo sofrendo sozinho debaixo dos cobertores.

Agora se você for um felizardo que não passa por isso, não discrimine, não faça chacota, não despreze o sofrimento que um depressivo passa. 

Ao invés disso tenha empatia, compreenda, ofereça ajuda, encaminhe pra um tratamento adequado. Só quem passa por isso sabe o martírio que a depressão faz a gente passar.

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*Imagem Pixabay

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